Delegado da PF é expulso dos EUA após detenção de Alexandre Ramagem
O delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da PF junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) em Miami desde agosto de 2023, foi obrigado a deixar o país nesta segunda-feira (20 de abril de 2026). A decisão foi comunicada diretamente pelo Departamento de Estado norte-americano, que o acusou de tentar manipular o sistema de imigração americano.
Marcelo Ivo, que atua como o único delegado federal brasileiro lotado dentro das instalações do ICE, foi apontado pela própria cúpula da PF como o responsável pelo alerta que levou à prisão de Alexandre Ramagem. Ramagem, ex-deputado federal (PL-RJ) e ex-diretor da Abin, condenado pelo STF a 16 anos de prisão em setembro de 2025 por tentativa de golpe de Estado, havia deixado o Brasil e ingressado nos EUA com seu passaporte diplomático.
Cronologia dos fatos
Tudo começou com o pedido formal de extradição enviado pelo Brasil aos EUA em 30 de dezembro de 2025. Ramagem, estava na Flórida.
No dia 13 de abril de 2026, agentes do ICE o detiveram em Orlando por questões migratórias, segundo a PF, por irregularidades no visto. A corporação brasileira divulgou a prisão como resultado de “cooperação internacional”. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, confirmou publicamente que o delegado Marcelo Ivo enviou informações sobre o paradeiro de Ramagem às autoridades americanas, o que permitiu a abordagem.
Ramagem permaneceu detido por dois dias e foi solto em 15 de abril sem fiança, podendo aguardar em liberdade o andamento do processo migratório nos EUA (ele teria apresentado pedido de asilo). A PF, surpreendida com a liberação rápida, enviou uma comitiva a Miami para reunião com as autoridades americanas na quinta-feira (17 de abril), com a participação do próprio Marcelo Ivo.
Cinco dias depois, em 20 de abril, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado publicou nota oficial no X (antigo Twitter). Sem citar o nome, o órgão afirmou:
“Nenhum estrangeiro tem o direito de manipular nosso sistema de imigração para, simultaneamente, contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o oficial brasileiro em questão deixe o nosso país por ter tentado fazer exatamente isso.”
A Embaixada dos EUA no Brasil republicou a mensagem, e a Embaixada brasileira em Washington confirmou que o alvo é Marcelo Ivo de Carvalho. O delegado, que estava no cargo havia dois anos e oito meses, deve retornar imediatamente ao Brasil. A PF ainda não se manifestou oficialmente sobre a expulsão.
O caso representa a maior tensão diplomática entre Brasil e EUA desde a época da lei Magnitsky, segundo analistas. De um lado, a Polícia Federal defende que houve legítima cooperação policial para localizar um foragido condenado. Do outro, o governo americano classifica a ação como tentativa de usar o sistema migratório para fins políticos, burlando o processo formal de extradição já em curso.
Marcelo Ivo de Carvalho, com 22 anos e 11 meses de carreira na PF, já ocupou cargos como delegado regional de Combate ao Crime Organizado em São Paulo (2018-2021) e superintendente na Paraíba (2022-2023). Sua expulsão encerra, por ora, a presença direta de um delegado federal brasileiro dentro do ICE.
